n251321(…) O Príncipe tinha demasiada experiência para oferecer a convidados sicilianos numa terra do interior um jantar que começasse com um potage, e mais facilmente infringia as regras da alta cozinha quando tal correspondia aos seus próprios gostos.
Mas as informações sobre o bárbaro costume forasteiro de servir um caldo como primeiro prato haviam chegado com suficiente insistência às figuras gradas de Donnafugata para fazer palpitar dentro deles um resíduo temor no início de qualquer desses jantares solenes. Por isso, quando três criados de verde e ouro e cabelo empoado entraram trazendo cada um a sua enorme travessa de prata que continha um gigantesco empadão de macarrão, só quatro das vinte pessoas se abstiveram de manifestar uma feliz surpresa: o Princípe e a Princesa porque, já sabiam, Angelica por afectação e Concetta por falta de apetite. Todos os outros incluindo-se Tancredi, deve-se confessar) manifestarm o seu alívio de diferentes modos, que iam dos aflautados grunhidos extasiados do notário, ao gritinho agudo do Francesco Paolo. Aliás, o círculo que fez o olhar ameaçador do dono da casa truncou de imediato estas manifestações indecorosas.
Contudo, boas maneiras à parte, o aspecto daquelas babélicas massas era bem digno de ecocar frémitos de admiração. O ouro brunido do invólucro, a fragrância de açúcar e de canela que emanava, eram apenas o prelúdio da sensação de delícia que se soltava de lá de dentro quando a faca esquartejava a crosta: irrompia primeiro um vapor pleno de aromas, descobriam-se a seguir os miúdos de frango, os ovos cozidos, as fatias de presunto, de frango e de cogumelos empilhadas na massa untuosa e quentíssima dos macarrões curtos a que o caldo de carne conferia uma preciosa cor de camurça. (…)

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(…) No fim do almoço serviu-se gelatina com rum. Este era o doce preferido de Dom Fabrizio e a Princesa, reconhecida pelos consolos recebidos, tivera o cuidado de o encomendar de manhã cedo. Apresentava-se ameaçadora, com aquela sua forma de torreão apoiada em bastiões e escarpas, de paredes lisas e escorregadias impossíveis de escalar, presidida por uma guarnição vermelha e verde de cerejas e de pistachos; contudo, era trémula e transparente e a colher afundava-se nela com espantosa facilidade. Quando a fortaleza âmbar chegou a Francesco Paolo, o rapaz de dezasseis anos, último a ser servido, já só consistia em espaldões canhoneados e em blocos soltos. Alegrado pelo aroma do licor e pelo gosto delicado da guarnição multicolor, o Princípe divertira-se assistindo ao desmantelar do tenebroso fortim sob o assalto dos apetites. Um dos seus copos ficara meio cheio de Marsala; ele ergueu-o, olhou à sua volta para a família fixando-se um instante mais longamente nos olhos azuis de Concetta e “à saúde do nosso querido Tancredi”, foi o que pronunciou. Bebeu o vinho de um único trago. (…)

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In “O Leopardo”,  Giuseppe Tomasi di Lampedusa

Editora Teorema, Tradução de José Colaço Barreiros

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