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O Banquete dos deuses (Fresco), Rafaello Sanzio de Urbino (1483-1520)


O BANQUETE

………………………………. Sobre as mãos
foi derramada água. Derramou-a um jovem delicado
que segurava nas mãos um jarro de prata. Em seguida,
trouxe uma coroa com belos ramos de tenro mirto
entrelaçada numa dupla grinalda.
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Crianças aos pares trouxeram mesas deslumbrantes
E, transportando cada par a sua, encheram com elas a sala.
Elas resplandeciam com o brilho das luzes suspensas no
alto,
Coroadas por bandejas, pratos com acepipes
e molheiras, e exibia-se por toda a parte
o que a arte inventara para tornar
a vida agradável e atractiva para o espírito.
…uns trouxeram cestos com biscoitos brancos
como a neve, outros…
vieram então, meu caro, não uma marmita,
mas pratos enormes, onde se apresentava
magnífica e esplendidamente toda a variedade
de pratos com enguias e abundantes
caldeiradas de congro de refinado paladar.
E veio ainda, pelo menos tão bom, um prato de raia
perfeitamente redondo e muito saboroso,
e pequenas marmitas com porções de esqualo…
…havia também abundância de lulas
e polvos de moles tentáculos. Depois disto,
chegou, quente, tão grande como a mesa,
um peixe inteiro de dentes cerrados…
e expelindo vapor, da quentura. Trouxeram,
além disso, chocos, ó amigo, camarões coloridos
e lagostins e, depois disto, compotas
de boas folhas verdes e agradáveis ao paladar…
e pão trigueiro, e pão espalmado……….
ao mesmo tempo doce e picante…
isso a que nós, eu e tu, chamamos, bem sei,
o centro do banquete. Mas, para remate,
ó deuses, eis que chega um atum
grelhado lá em baixo ao calor, no lugar onde,
cortado por uma faca, foi imediatamente
temperado. E, se eu e tu precisássemos
de ir em auxílio dessa barriga,
retiraríamos daí grande prazer. Mas,
quando o deixámos, veio outra baixela
onde eu podia ainda picar sem reserva,
sem que alguém me sensurasse por isso.
Tudo isto estava ali realmente para nós;
Recuámos, porém, perante as vísceras
ferventes; em seguida, veio linguiça
de porco caseiro e lombo e alcatra
borbulhando da quentura.
E o principal: um criado trouxe, inteiro,
completamente cozido, um cabrito alimentado a leite,
e estufado. Em seguida miudezas
Cozidas no ponto e, depois delas, costoletas
de porco de pele muito branca,
o focinho, a cabeça, as patas e croquetes
bem temperados. E ainda outras carnes,
de cabrito e cordeiro, cozidas ou grelhadas.
E, além disso, ó delícias, chouriços,
deliciosos, extraídos de ambos os animais
– tão apetitosos que os deuses os apreciariam.
(Espero, meu caro, que tu venhas a provar
todas estas iguarias.) E havia ainda
porções de lebre, de pintainhos,
de perdizes e pombos em abundância.
Por todos os lados se ofereciam
as carnes quentes… e as massas folhadas.
E, para completar a atrelagem, trouxeram
Ainda loiro mel e leite coalhado que todos
Consideraram facilmente queijo mole
E eu tomei como tal. Mas, quando
os convivas se saciaram de comer e beber,
os empregados levantaram a mesa. Em seguida,
crianças trouxeram água para lavar as mãos,
derramando água tépida sobre o óleo de íris
derramando água tépida sobre o óleo de íris
enquanto precisávamos, e deram-nos toalhas deslumbrantes tecidas
de linho fino, perfumadas, cheirando
a ambrosia, e grinaldas tecidas de violetas.

Thomas_Couture

Os Romanos da decadência, Thomas Couture 1847

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Mas eis que as mesas deslumbrantes que víramos antes
foram trazidas de novo, como navios de transporte
carregados de riquezas acumuladas. Os mortais
chamam-lhes a sobremesa e os imortais
o corno de Amalteia. No meio erguia-se
um grande motivo de alegria para os homens,
uma substância branca e doce, que escondia
recatadamente  face sob um tecido fino
como uma teia de aranha, para que
não se visse o rebanho de abelhas de Aristeu
nascidas das ovelhas e que o tempo seco,
nas fontes secas fez retroceder. O seu nome
é doce não moído. Mãos diligentes
serviram depois uma iguaria a que chamam
gulodices de Zeus. Em seguida distribuíram
uma mistura grelhada com açafrão, que se obtém
aloirando ao lume uma massa branca de grão-de-bico,
iguaria requintada, duma extrema doçura…
Depois vieram alinhar-se à volta, semelhantes
aos raios dourados do mel, uns pastéis de massa adocicada,
Finos pedaços passados por azeite, chamados
“conchinhas de porco”, agradáveis torradas
redondas, em quantidade inumerável
bolos de mel, fabricados em abundância,
fritos e polvilhados com sésamo,
e bolos de leite, com mel também misturado,
e pastéis de massa fina. E trouxeram ainda,
feito de queijo coalhado com sésamo,
e mergulhados em azeite a ferver,
bolos também polvilhados de sésamo. Em seguida,
grãos-de-bico com açafrão, colhidos
em tenra floração, e ovos, e amêndoas
de casca doce, e nozes, que as crianças
gostam de trincar. Em suma, tudo
o que convém a uma mesa orgulhosa
das suas riquezas. Finalmente,
vieram as bebidas, as taças
e as conversas em comum. Disseram-se
graças espirituosas e novas, que todos
louvaram e admiraram sem reservas.

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Aceita este licor de Baco,
esta taça cheia de humilde orvalho,
Porque esta doçura é Brónio folgazão
quem no-la dá e traz a todos alegria.

Uns sorviam o néctar em taças de ouro
esculpidas, outras bebeiam lentamente
por chifres cavados…

Filóxeno de Citera


Varonese_Cana

As bodas de Caná, , Paolo Veronese, 1563