conte_d_Orsay_cocteau(…) Vibrações bem diferentes podia suscitar uma grande perfumaria no ânimo de um homem mundano: como no tempo em que os Champs Elysées a minha carruagem se detinha a um brusco puxão das rédeas diante de um conhecido letreiro, e eu descia em fúria, entrava na galeria toda espelhos deixando cair de um só gesto manto cartola bengala luvas nas mãos das raparigas que acorriam logo a apanhá-los, e Madame Odile vinha ao meu encontro como que voando sobre a barra da saia: “Monsieur de Saint-Caliste! Que bom vento vos traz? Dizei-me, em que podemos servir-vos? Uma água de colónia? Uma essência de Vetiver?  Uma pomada para fortalecer o bigode? Uma loção que devolva ao cabelo a sua verdadeira cor de ébano? Ou então” e erguia as sobrancelhas dando aos lábios um sorriso malicioso, “é mais uma contribuição para a lista de presentes que todas as semanas os meus paquetes levam discretamente em vosso nome a endereços ilustres e obscuros espalhados por toda Paris? È uma nova conquista que estais para confiar à vossa fiel Madame Odile?”
E como eu já abalado pela agitação me calava e torcia as mãos, as raparigas já começavam  a atarefar-se à minha volta: uma tirava-me a gardénia da lapela para que a sua apesar de tudo débil fragrância não perturbasse a recepção dos perfumes, outra extraía-me  do bolsinho o lenço de seda para que estivesse pronto a absorver as gotas das amostras entre as quais eu deveria escolher, uma teceira borrifava-me de águas de rosas o colete para netralizar o cheiro do charuto, uma quarta passava-me uma pincelada de laca inodora pelo bigode para que não se impregnasse das diversas essências incomodando-me as narinas.
E a senhora: “Estou a ver, é uma paixão! Há muito tempo que vos esperava,  Monsieur! Não podeis esconder-me nada! É uma grande dama? É uma rainha da comédia? Das variedades? Ou durante uma despreocupada excursão no demi-monde escorregaste inesperadamente no sentimento? Contudo, em primeiro lugar, em que série a classificareis: é dama de jasminados, de frutáceos, de penetrantes, de orientais? Dizei-me mon chou!”
E uma das empregadas, Martine, jºá me tilitava debaixo da orelha com a ponta do dedo banhada de patchouli (e entretanto impelia para baixo da minha axila o bico do seu seuio) e Charlotte estendia-me para cheirar um braço perfumado de cássia (com este sistema já outras vezes eu tiinha percorrido um mostruário inteiro disposto sobre o seu corpo), e Sidonie soprava a minha mão para fazer evaporar a gota de eglantina que tinha posto (entre os seus lábios assomavam os dentinhos de que eu conhecia bem o mordiscar), e uma outra que eu nunca tinha visto, uma rapariguinha nova (que, preocupado como eu estava, mal toquei com um distraído beliscão) tomava-me de ira apertando a borla do pulverizador como se me convidasse para um duelo amoroso.
“Não Madame, não é este,  por minha fé”, consegui dizer. “O que eu tenho de encontrar não é o perfume adaptado a uma mulher que conheço! É a mulher que eu procuro: uma mulher de quem só conheço o perfume!” (…)

In “Sob o sol do jaguar”, Italo Calvino, 1990


Noctambulario blog. Mayo 09. Foto de Flor garduño

Foto: Flor Garduño