Assim devem ter sido pela natureza das coisas, as origens do prazer da mesa, que convém distinguir com clareza do prazer de comer, seu antecedente necessário.
O prazer de comer é a sensação actual e directa de uma necessidade que se satisfaz.
O prazer da mesa é a sensação reflectida que nasce das diversas circunstâncias de factos, lugares, coisas e personagens que acompanham a refeição.
O prazer de comer, temo-lo em comum com os animais, pressupõe apenas a fome e aquilo que é necessário para a satisfazer.
O prazer da mesa é a sensação reflectida que nasce das diversas circunstâncias de factos, lugares, coisas e personagens que acompanham a refeição.
O prazer da mesa é próprio da espécie humana; pressupõe cuidados preliminares com a preparação da refeição, com a escolha do local e dos convidados.
O prazer de comer exige, se não a fome, pelo menos o apetite; o prazer da mesa, na maioria das vezes, é independente de ambos.
Estes dois estados podem ser sempre observados nos nossos festins.
No início da refeição, todos comem avidamente, sem falar, sem prestar atenção no que pode ser dito; e não importa a posição social: todos se esquecem de tudo e se comportam como simples operários da grande fábrica da natureza. Mas quando a necessidade começa a ser satisfeita, a reflexão desperta, a conversação estabelece-se, uma outra ordem de coisas principia; e aquele que até então era apenas um consumidor, torna-se uma companhia mais ou menos agradável, conforma os meios que o Senhor de todas as coisas lhe concedeu.

In “Fisiologia do gosto”, Brillat-Savarin, 1826

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