Mona_02Conheci o trabalho de Mona Di Orio pela primeira vez, há pouco mais de dois anos em Madrid, onde tive oportunidade de experimentar as três fragrâncias existentes na altura. Fiquei fascinado. Complexas, elegantes, originais, impressionantemente adultas e seguras, como se quem as concebeu já não precisasse de provar nada a ninguém e se dedicasse agora a criar atmosferas olfactivas suspensas no tempo, totalmente alheias à agenda efémera da maior parte da perfumaria actual.
Por isso, quando pela primeira vez vi o rosto jovem de Mona Di Orio no sítio da internet, não me passou pela cabeça que fosse ela a criadora das fragrâncias que experimentara, mas antes uma representação ideal, criteriosamente escolhida para personificar o universo olfactivo criado por alguém com outra idade. Foi preciso conhecê-la para ter a certeza de que afinal é mesmo desta mulher de ar algo frágil e romântico e da sua sensibilidade que emana esta perfumaria clássica e sofisticada, exemplo maior da perfumaria de autor dos nossos dias.
A história desta francesa com ascendência italiana começa por ser um exemplo de perseverança e realização pessoal.
Nascida em 1969 em Annecy, na França, é das férias de Verão que passa com a avó no Sul de França que lhe vêm as primeiras recordações relacionadas com o perfume: “Nunca me esquecerei do prazer que sentia quando ia com ela regar os gerânios. A essência delicada que as folhas libertam combinada com o cheiro da terra seca, eram para mim algo invulgar e de certa forma mágico”.
As suas brincadeiras de menina passam muitas vezes ao lado das bonecas para se concentrarem na vocação que desponta. Aos 16 anos o pai constrói-lhe um pequeno “orgão de perfumista” que faz as suas delícias e inflama ainda mais a paixão inata. Tenta entrar para um curso em Grasse mas sem sucesso, não tem familiares no negócio nem ligações que lhe facilitem a candidatura. A rejeição não a demove. Estuda arte e filosofia e ao mesmo tempo cultiva-se lendo avidamente os livros de Edmond Roudnitska, um dos maiores nomes da perfumaria do séc. XX, criador de fragrâncias míticas como Eau Sauvage, Diorissimo ou Eau de Hermès. Um dia decide escrever ao mestre para lhe pedir alguns dos seus títulos esgotados. Conta a sua intenção a amigos que se riem: com certeza que Roudnitska, um dos mais solicitados perfumistas de sempre, tem mais do que fazer do que responder a uma jovem anónima. Não desiste e, para surpresa de todos, dela inclusive, o mestre não só lhe responde como a convida para o conhecer. Vão manter contactos esporádicos durante três anos até que em 1986 Roudnistka rende-se à paixão de Mona – talvez por também ele inicialmente ter sido um outsider no mundo da perfumaria – e convida-a para iniciar o processo de aprendizagem no seu laboratório. A partir daqui Mona torna-se a protegida de Edmond Roudnitska e começa a viver aquilo com que sempre sonhara.
Roudnitska falece em 1996 mas Mona permanece no laboratório durante mais uma década a convite da sua mulher. É somente em 2004, depois de conhecer o designer de moda holandês Jeroen Oude Sogtoen, que se torna seu sócio, que Mona decide avançar com uma marca própria que é a consumação das sua ideias, que têm muito mais a ver com o processo artístico do que com multimilionário negócio que todas os meses lança dezenas de fragrâncias no mercado.
Em seu entender, uma fragrância não deve ser vista como um mero acessório de determinada marca: “Hoje existe toda uma indústria que produz fragrâncias para um hipotético consumidor global baseadas unicamente em estudos de mercado. O resultado são fragrâncias monótonas que não têm em conta as particularidades de quem as usa.” E contrapõe recorrendo à arte: “o tipo de perfumaria que pratico nada tem a ver com isto. Tento criar fragrâncias como se de uma pintura se tratasse, aplicando nelas todo o meu conhecimento e sensibilidade. Num perfume, o que é maravilhoso é a pessoa que o usa poder apreciar a sua evolução ao longo do dia e surpreender-se ao percorrer as diversas camadas, como acontece com uma boa pintura, em que cada vez que voltamos a olhar descobrimos algo de novo”.
Durante estes 4 anos Mona Di Orio criou uma colecção composta por 6 fragrâncias: Nuit Noire, Lux e Carnation (2006); Oiro 2007; Amytis (2008) e Chamarré, lançado há bem pouco tempo, que define como perfumes “honestos, sensuais e com uma ligação à terra, criados a pensar em pessoas  sensíveis, de mente aberta e apaixonadas”. Faz questão de deixar claro que é absolutamente intransigente no que diz respeito à qualidade das matérias primas que utiliza na composição das suas fragrâncias. “Isto permite-me criar fórmulas relativamente simples nas quais o que verdadeiramente brilha são os ingredientes” – e estabelece uma analogia com a cozinha “Se tiver um excelente peixe, pouco mais necessito do que um bom azeite”.
Quando lhe perguntamos o que necessita para se sentir realizada enquanto perfumista responde com modéstia, contradizendo a opinião que tenho do seu trabalho: “ Ainda estou no princípio, tenho de continuar com humildade, com o espírito aberto e prosseguir com o meu objectivo de criar emoções nas pessoas através do olfacto, talvez então, mais para diante possa afirmar que me realizei.”

In “Essential Lisboa”, Cesar Brigante, (Retrato: Francisco de Almeida Dias)


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