“…e tinhamos o projecto de abrir um bar que se chamaria À Canhonada e seria escandalosamente caro, o mais caro do mundo. Haveria apenas bebidas sublimes, incrivelmente refinadas, vindas dos quatro cantos do mundo.
Seria um bar intímo muito confortável, de extremo bom gosto, é claro, com apenas uma dezena de mesas. Em frente à porta, fazendo jus ao nome do estabelecimento, estaria uma antiga bombarda, com rastilho e pólvora negra, que dispararia uma violenta canhonada, a qualquer hora do dia ou da noite, sempre que um cliente gastasse mil dólares.
Este projecto aliciante, ainda que pouco democrático, nunca foi levado a cabo. A ideia será de quem pegar nela. Não deixa de ser interessante imaginar um modesto empregado, num prédio vizinho, acordado às quatro da manhã, por uma canhonada dizendo à mulher deitada a seu lado: Mais um sacana que acaba de beber por mil dólares.”

in  “O meu último suspiro”, Luis Bunuel

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Foto: Man Ray