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“El gourmet jamás olvida el nombre del muerto. Es más, mientras se lo come hace expresa mencíon de él, sea jabalí o alcachofa, y recuerda otros asesinatos y devoraciones anteriores, porque el placer de comer suele ir acompañado del de la memoria de pasados festines. Entre la arbitraria e hiperbólica adjectivación del gourmet abunda el término “memorable”. El gourmet devora dos veces al mismo tiempo, lo que come y lo que ha comido. La cocina es una metáfora ejemplar de la hipocresía de la cultura. El llamado arte culinario se basa en un asesinato previo, con toda clase de alevosías. Si ese mal salvaje que es el hombre civilizado arrebatara la vida de un animal o de una planta y se comiera los cadáveres crudos, seria señalado con el dedo como um monstruo capaz de bestialidades estremecedoras. Pero si ese mal salvaje trocea el cadáver, lo marina, lo adereza, lo guisa y se lo come, su crimen se convierte en cultura y merece memoria, libros, disquisiciones, teoría, casi una ciencia de la conducta alimentar. No hay vida sin crueldade. No hay historia sin dolor.”

in “Contra los gourmets”, Manuel Vázquez Montalbán (1985)


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Guillaume Fouace, (1827 – 1895 ), Nature morte au lièvre, faisan et bécasse


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Andrea Landini, (1847-1935) Apartamento de Luís XIV em Versalhes,  o aniversário do chefe


Joaquín Sorolla

Joaquín Sorolla (1863-1923), Desnudo de mujer, Óleo sobre tela, 106 x 186 cm. 1902. Colecção particular


Mona_02Conheci o trabalho de Mona Di Orio pela primeira vez, há pouco mais de dois anos em Madrid, onde tive oportunidade de experimentar as três fragrâncias existentes na altura. Fiquei fascinado. Complexas, elegantes, originais, impressionantemente adultas e seguras, como se quem as concebeu já não precisasse de provar nada a ninguém e se dedicasse agora a criar atmosferas olfactivas suspensas no tempo, totalmente alheias à agenda efémera da maior parte da perfumaria actual.
Por isso, quando pela primeira vez vi o rosto jovem de Mona Di Orio no sítio da internet, não me passou pela cabeça que fosse ela a criadora das fragrâncias que experimentara, mas antes uma representação ideal, criteriosamente escolhida para personificar o universo olfactivo criado por alguém com outra idade. Foi preciso conhecê-la para ter a certeza de que afinal é mesmo desta mulher de ar algo frágil e romântico e da sua sensibilidade que emana esta perfumaria clássica e sofisticada, exemplo maior da perfumaria de autor dos nossos dias.
A história desta francesa com ascendência italiana começa por ser um exemplo de perseverança e realização pessoal.
Nascida em 1969 em Annecy, na França, é das férias de Verão que passa com a avó no Sul de França que lhe vêm as primeiras recordações relacionadas com o perfume: “Nunca me esquecerei do prazer que sentia quando ia com ela regar os gerânios. A essência delicada que as folhas libertam combinada com o cheiro da terra seca, eram para mim algo invulgar e de certa forma mágico”.
As suas brincadeiras de menina passam muitas vezes ao lado das bonecas para se concentrarem na vocação que desponta. Aos 16 anos o pai constrói-lhe um pequeno “orgão de perfumista” que faz as suas delícias e inflama ainda mais a paixão inata. Tenta entrar para um curso em Grasse mas sem sucesso, não tem familiares no negócio nem ligações que lhe facilitem a candidatura. A rejeição não a demove. Estuda arte e filosofia e ao mesmo tempo cultiva-se lendo avidamente os livros de Edmond Roudnitska, um dos maiores nomes da perfumaria do séc. XX, criador de fragrâncias míticas como Eau Sauvage, Diorissimo ou Eau de Hermès. Um dia decide escrever ao mestre para lhe pedir alguns dos seus títulos esgotados. Conta a sua intenção a amigos que se riem: com certeza que Roudnitska, um dos mais solicitados perfumistas de sempre, tem mais do que fazer do que responder a uma jovem anónima. Não desiste e, para surpresa de todos, dela inclusive, o mestre não só lhe responde como a convida para o conhecer. Vão manter contactos esporádicos durante três anos até que em 1986 Roudnistka rende-se à paixão de Mona – talvez por também ele inicialmente ter sido um outsider no mundo da perfumaria – e convida-a para iniciar o processo de aprendizagem no seu laboratório. A partir daqui Mona torna-se a protegida de Edmond Roudnitska e começa a viver aquilo com que sempre sonhara.
Roudnitska falece em 1996 mas Mona permanece no laboratório durante mais uma década a convite da sua mulher. É somente em 2004, depois de conhecer o designer de moda holandês Jeroen Oude Sogtoen, que se torna seu sócio, que Mona decide avançar com uma marca própria que é a consumação das sua ideias, que têm muito mais a ver com o processo artístico do que com multimilionário negócio que todas os meses lança dezenas de fragrâncias no mercado.
Em seu entender, uma fragrância não deve ser vista como um mero acessório de determinada marca: “Hoje existe toda uma indústria que produz fragrâncias para um hipotético consumidor global baseadas unicamente em estudos de mercado. O resultado são fragrâncias monótonas que não têm em conta as particularidades de quem as usa.” E contrapõe recorrendo à arte: “o tipo de perfumaria que pratico nada tem a ver com isto. Tento criar fragrâncias como se de uma pintura se tratasse, aplicando nelas todo o meu conhecimento e sensibilidade. Num perfume, o que é maravilhoso é a pessoa que o usa poder apreciar a sua evolução ao longo do dia e surpreender-se ao percorrer as diversas camadas, como acontece com uma boa pintura, em que cada vez que voltamos a olhar descobrimos algo de novo”.
Durante estes 4 anos Mona Di Orio criou uma colecção composta por 6 fragrâncias: Nuit Noire, Lux e Carnation (2006); Oiro 2007; Amytis (2008) e Chamarré, lançado há bem pouco tempo, que define como perfumes “honestos, sensuais e com uma ligação à terra, criados a pensar em pessoas  sensíveis, de mente aberta e apaixonadas”. Faz questão de deixar claro que é absolutamente intransigente no que diz respeito à qualidade das matérias primas que utiliza na composição das suas fragrâncias. “Isto permite-me criar fórmulas relativamente simples nas quais o que verdadeiramente brilha são os ingredientes” – e estabelece uma analogia com a cozinha “Se tiver um excelente peixe, pouco mais necessito do que um bom azeite”.
Quando lhe perguntamos o que necessita para se sentir realizada enquanto perfumista responde com modéstia, contradizendo a opinião que tenho do seu trabalho: “ Ainda estou no princípio, tenho de continuar com humildade, com o espírito aberto e prosseguir com o meu objectivo de criar emoções nas pessoas através do olfacto, talvez então, mais para diante possa afirmar que me realizei.”

In “Essential Lisboa”, Cesar Brigante, (Retrato: Francisco de Almeida Dias)


MONAPORTF

Com o estômago satisfeito, o teu coração perdoa. Com o estômago vazio, não perdoas nada.

Provérbio siciliano

Assim devem ter sido pela natureza das coisas, as origens do prazer da mesa, que convém distinguir com clareza do prazer de comer, seu antecedente necessário.
O prazer de comer é a sensação actual e directa de uma necessidade que se satisfaz.
O prazer da mesa é a sensação reflectida que nasce das diversas circunstâncias de factos, lugares, coisas e personagens que acompanham a refeição.
O prazer de comer, temo-lo em comum com os animais, pressupõe apenas a fome e aquilo que é necessário para a satisfazer.
O prazer da mesa é a sensação reflectida que nasce das diversas circunstâncias de factos, lugares, coisas e personagens que acompanham a refeição.
O prazer da mesa é próprio da espécie humana; pressupõe cuidados preliminares com a preparação da refeição, com a escolha do local e dos convidados.
O prazer de comer exige, se não a fome, pelo menos o apetite; o prazer da mesa, na maioria das vezes, é independente de ambos.
Estes dois estados podem ser sempre observados nos nossos festins.
No início da refeição, todos comem avidamente, sem falar, sem prestar atenção no que pode ser dito; e não importa a posição social: todos se esquecem de tudo e se comportam como simples operários da grande fábrica da natureza. Mas quando a necessidade começa a ser satisfeita, a reflexão desperta, a conversação estabelece-se, uma outra ordem de coisas principia; e aquele que até então era apenas um consumidor, torna-se uma companhia mais ou menos agradável, conforma os meios que o Senhor de todas as coisas lhe concedeu.

In “Fisiologia do gosto”, Brillat-Savarin, 1826

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“…e tinhamos o projecto de abrir um bar que se chamaria À Canhonada e seria escandalosamente caro, o mais caro do mundo. Haveria apenas bebidas sublimes, incrivelmente refinadas, vindas dos quatro cantos do mundo.
Seria um bar intímo muito confortável, de extremo bom gosto, é claro, com apenas uma dezena de mesas. Em frente à porta, fazendo jus ao nome do estabelecimento, estaria uma antiga bombarda, com rastilho e pólvora negra, que dispararia uma violenta canhonada, a qualquer hora do dia ou da noite, sempre que um cliente gastasse mil dólares.
Este projecto aliciante, ainda que pouco democrático, nunca foi levado a cabo. A ideia será de quem pegar nela. Não deixa de ser interessante imaginar um modesto empregado, num prédio vizinho, acordado às quatro da manhã, por uma canhonada dizendo à mulher deitada a seu lado: Mais um sacana que acaba de beber por mil dólares.”

in  “O meu último suspiro”, Luis Bunuel

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Foto: Man Ray

Em boa-hora a D. Quixote lembrou-se de reeditar a Montanha Mágica de Thomas Mann. Nos próximos tempos tenho com que me entreter. Logo de entrada, na pág. 25, leio o seguinte: “Mandaram vir uma garrafa de Gruaud-Larose, que Hans Castorp devolveu, já que o vinho não fora servido à temperatura ideal”.
Para quem não sabe, informo que esta obra foi publicada pela primeira vez em 1924. Assim sendo, que temperatura seria esta?

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Photo: Carl Mydans, 1939