Estão convencidos de que sabem fazê-la, de tal modo ela parece simples, e muitas vezes não lhe dão a devida importância. É preciso que coza entre quinze e vinte minutos e não durante duas horas — todas as mulheres francesas deixam cozer demasiado os legumes e as sopas. E depois, mais vale deitar os alhos porros na panela quando as batatas começam a ferver: a sopa fica com um tom esverdeado e ganha um aroma mais vivo. Alem disso, é preciso dosear bem os alhos porros: dois alhos porros médios são suficientes para um quilo de batatas. Nos restaurantes esta sopa nunca fica em condições: fica sempre cozida demais, demasiado «retardada», triste, morna, e acaba por incluir-se na lista comum das sopas de legumes — de que há falta — dos restaurantes franceses de província. Não, devemos querer fazê-la e fazê-la com cuidado, evitar esquecermo-nos dela ao «lume», para que não perca o sabor. É servida sem nada, ou com manteiga ou natas frescas. Também podemos juntar-lhe uns pedacinhos de pão torrado no momento de servi-la: dar-lhe-emos então um outro nome ou inventaremos um qualquer — deste modo as crianças comê-la-ão com mais vontade que se lhe dermos o nome ridículo de sopa de alhos porros com batatas. É preciso tempo, são precisos anos para reencontrarmos o sabor desta sopa, imposta às crianças sob diversos pretextos (a sopa faz crescer, faz os meninos bonitos, etc.). Não há nada na cozinha francesa que se possa igualar à simplicidade e à necessidade da sopa de alhos porros. Deve ter sido inventada numa região ocidental, numa noite de Inverno, por uma mulher ainda jovem, pertencendo à burguesia local, que, nessa noite, sentiu aversão aos molhos gordos — e a outras coisas mais, sem dúvida — mas sabia-o ela? O organismo absorve esta sopa com satisfação. Digamo-lo sem ambiguidades: não tem a suculência do toucinho, não é sopa para alimentar ou aquecer, não é a sopa magra para refrescar, o corpo sorve-a em grandes tragos, purifica-se, depura-se, embebendo os músculos nesta verdura primitiva. O seu aroma espalha-se nas casas muito rapidamente, é muito activo, vulgar como a comida do pobre, o trabalho das mulheres, o vomitado dos recém-nascidos. Pode não nos apetecer fazer nada e depois, fazer isso, sim, fazer essa sopa: entre estas duas vontades, uma margem muito estreita, sempre a mesma – o suicídio.
Marguerite Duras, “Outside – notas à margem” , trad. Maria Filomena Duarte, Difel.
Visto aqui Malone meurt
La Pipe
Je suis la pipe d’un auteur;
On voit, à contempler ma mine
D’Abyssinienne ou de Cafrine,
Que mon maître est un grand fumeur.
Quand il est comblé de douleur,
Je fume comme la chaumine
Où se prépare la cuisine
Pour le retour du laboureur.
J’enlace et je berce son âme
Dans le réseau mobile et bleu
Qui monte de ma bouche en feu,
Et je roule un puissant dictame
Qui charme son coeur et guérit
De ses fatigues son esprit.
— Charles Baudelaire
LIVRO I
Aqui Mecenas, dou início ao canto
que nos ensina a ter fartas colheitas,
a como lavrar terra em astro certo,
a como vides ajuntar aos olmos
e que cuidados tem de haver com bois
ou como se tratar gado miúdo,
como levar saber à parca abelha.
E dos céus vos invoco, luminares,
que guias sois do percorrer dos anos.
E te venero, Baco, a Ceres honro,
a Ceres criadora, se é verdade
que foi por vós que nos trocou a terra
as landes da Caónia pelo trigo
e juntou à bebida de Aqueloo
o sumo de uva só por vós trazido.
E a vós também cuja divina ajuda
vale aos homens do campo, eu vos invoco
para que venham, Faunos, vossos passos
como os vossos também, Dríades jovens,
por vossos dons invoco. E tu, Neptuno,
a quem a Terra, por tridente lesa,
deu fremente a cavalo; e tu também
dos bosques habitante, a quem devemos
os três vezes cem touros que da neve
a brancura revestem e que pastam
as abundantes moitas de ilha Ceia;
e tu, deus Pã, o guarda das ovelhas,
deixa o bosque e gargantas do Liceu
que tua pátria são; e vem Tegeeu,
me dá a tua ajuda, se é que ainda
o Ménalo te importa; e tu Minerva,
que oliveira inventaste; e tu menino,
que arado adunco nos mostraste em obra;
e tu, Silvano, que desde a raíz
arrancado cipreste tens contigo;
deuses e deusas todas que cuidais
de defender os campos e que aos frutos
que da terra brotarem sem semente
sustentais quando nascem e do céu
tanta chuva fazeis logo descer;
…”
In, “Geórgicas”, Virgílio, Temas & Debates – Tradução do latim, Agostinho da Silva
“O período de devoção religiosa de Tolstoi teria um término tão abrupto quanto o seu início. Na Quaresma, quando a família estava à mesa, perante um jantar vegetariano, Tolstoi pediu as costeletas reservadas ao tutor ateísta dos filhos. Quando Sofia lhe recordou que era dia de jejum, Tolstoi respondeu-lhe: “Não tenciono fazer mais jejum e, por favor, não volteis a encomendar-me refeições de Quaresma.” Foi com deleite que comeu as costeletas perante o olhar dos filhos. Vários deles não teriam qualquer religião na idade adulta, o que não surpreenderia Sofia: estavam normalmente confusos. Sofia sabia que o marido tinha uma grande necessidade da religião, mas que a sua fé tradicional o deixava insatisfeito. A sua busca espiritual era complexa, mas as suas conversões foram súbitas.”
In “Sofia Tolstoi – Uma Biografia”, Alexandra Popoff, Civilização Editora
Retrato de Leo Tolstoi por Ivan Nikolaevich Kramskoy
Parnaso (Apolo, Venus, Mercúrio e as Musas), de Andrea Mantegna
Estou a rasgar um trilho pelos domínios sem caminhos do reino pieriano das Musas, onde nenhum pé deixou antes a sua marca. Que alegria é aproximar-nos de fontes virgens e beber as suas águas. Que alegria colher novas flores e juntá-las numa gloriosa grinalda, arrancadas a campos cujas flores ainda nunca foram entrelaçados pelas Musas à volta de qualquer cabeça. Esta é a minha recompensa por ensinar esses temas majestosos, por me esforçar por libertar os espíritos dos homens dos apertados nós da superstição, e por derramar nos escuros cantos os raios brilhantes da minha canção que irradia tudo com o fulgor das Musas.
In, “Sensações e Sexo”, Lucrécio, Tradução de José Pinheiro, Coisas de Ler, Edições, Lda.
Um projecto documental de autoria da fotógrafa espanhola Greta Alfaro
http://www.gretaalfaro.com/index.html
Prato de peixe em faiança de Gaia, Sec. XIX
A raia, para ser boa, deve ser comida de caldeirada de pitai (Mira) menos em Maio, porque «raia em Maio, tumba à porta», e à faneca com três fff – fresca, fria e frita. Cada peixe têm a sua época: « a solha,. no tempo do milho, come-a com o teu amigo», a sardinha antes da desova e o próprio caranguejo só lá para Agosto é que, assado na casca, atinge a perfeição. Mas todo o peixe regala quando sai da rede para o lume: tem um sabor único a mar, e até a reluzente savelha e o horrível cação, lavados e amanhados na maré, se tornam toleráveis. Quanto ao linguado, ao goraz, à corvina, à gordíssima sarda, à pescada e à saborosa sardinha, para não falar dos peixes hoje quase desaparecidos, do rodovalho, do peixe-rei, ignora-lhe o sabor e o delicado perfume quem não os trouxe do barco para casa, ainda a escorrer dentro do cabaz, sobre uma cama de algas e de limos. São então esplêndidos assados, fritos, de caldeirada, com um fio de azeite, ou preparados pelo próprio pescador sobre umas brasas.
Quando a maré vaza, os pescadores procuram a serrada para iscar os espinheis, e a praia fica a descoberto: as poças de água são jóias cheias de reflexos entre o lodo, e cada penedo com a sua cabeleira escura de sargaço — verde húmido e translúcido – é um ser vivo. Em todas as poças faíscam as enguias que se metem nos aboques, o caranguejo traiçoeiro voraz, que espera a presa na sua clausura de pedra, as mantas de pequenos peixes por criar, reluzindo quando, num movimento brusco, mostram ao mesmo tempo o ventre esbranquiçado, e um bicho mole como lesma que se arrasta pelo limo. Há fragas enormes, roídas veneráveis, cobertas de lapas aderentes, de mexilhões aos cachos que, sentindo gente, fecham logo a casa, e onde o azul empoça em buracos que reflectem o universo: cabem lá dentro o céu, a luz e as estrelas.
In, “Os Pescadores”, Raul Brandão
Alice B. Toklas e Gertude Stein são um dos mais famosos casais femininos do panorama literário norte-americano. Stein conheceu Toklas em 1907, na Europa onde ambas residiram durante várias décadas e conviveram com gente como Picasso, Matisse, Braque, Ernst Hemingway ou Paul Bowles. Na década de 30, Stein publicou as suas memórias sob o curioso título “The Autobiography of Alice B. Toklas” que se tornaria o seu bestseller. Viveram juntas até à morte de Stein em 1946. Em 1954, Alice publicou as suas próprias memórias: “The Alice B. Toklas Cookbook”. No livro, um misto de recordações e receitas de culinária, figura a célebre “Haschich Fudge” que ficaria conhecida como “Alice B. Tokles Fudgies” e cujo ingrediente diferenciador é cannabis sativa: Os bolinhos cuja inclusão no receituário terá sido sugerida pelo multi-facetado Brion Gysin, tornou-se bastante popular junto dos então emergentes beatnicks, por razões óbvias.
Eis a receita:
“Junte uma colher de chá de pimenta preta, uma noz-moscada, 4 paus de canela, uma colher de chá de sementes de coentro e pulverize num almofariz.
Junte um punhado de tâmaras, igual medida de figos secos e amêndoas sem pele e amendoins, pulverize e misture.
Um molho de canabis deverá também ser pulverizado no almofariz e adicionado aos restantes ingredientes e bem misturado.
Acrescente uma chávena de açúcar misturado com manteiga. Enrole como uma torta e corte aos bocados ou, se preferir, molde a mistura em bolas do tamanho de uma noz.
Deve ser comido com cuidado. Duas unidades serão suficientes. Obter a cannabis poderá ser difícil… esta deverá ser apanhada e secada na altura em que a planta acabou de desenvolver as sementes, enquanto a planta se encontra verde.”
No extracto do filme “I Love You Alice B. Toklas” de 1968, dirigido por Hy Averback e protagonizado por Peter Sellers, que anexo, os bolos são confeccionados de forma diferente mas julgo que o efeito será o mesmo.
(…) Depois de preparar o ponche divertimo-nos a comer ostras, passando-as um ao outro quando já as tínhamos na boca. Ela oferecia-me a sua sobre a sua língua ao mesmo tempo que eu lhe metia na boca a minha. Não há jogo mais lascivo, mais voluptuoso entre dois apaixonados. Até é cómico, e a sua comicidade não desgasta, porque o riso só está feito para os que são felizes. Que bom está o molho de uma ostra que chupo da boca da pessoa que adoro! É a sua saliva. A intensidade do amor não pode deixar de aumentar quando a mastigo, quando a engulo! (…)
in, “História da minha vida”, Giacomo Casanova, Tradução de Nuno Castro e Paulo Azeredo
O primeiro restaurante gourmet para plantas: um projecto de Jonathon Keats explicado em entrevista no blog Edible Geography.















