David Chang no Paul Holdengraber Show sobre o medo de falhar, Lucky Peach, Thomas Bernhard, David Thoreau etc.

 

“É uma coisa curiosa que todos os credos prometam um paraíso que seria absolutamente inabitável para alguém de gosto civilizado.”
Evelyn Waugh

 

Via lpcoverlover.com

 

 

Jacques Herzog, Ai Weiwei e Pierre de Meuron


“Alargando os braços na mesura coniforme do orate fratres, contou padre Jesuíno da sua grande decepção. Tinham estoirado muito coelho, muita lebre, alguns raposos, dois ou três lobatos, mas do Bicho-Mau nem pelinho lobrigaram.
– Estou em crer com a minha criada que anda aqui o Mafarrico!
– Rematou num gesto burlesco de credulidade.
–  E melhor seria trazer o hissope da água benta que espingardas! – obtemperou Teodoro, arremedando-lhe o gatimanho.
– O que lá vai, lá vai! Ocupemo-nos da santa trincadeira, que o meu estômago está a gritar contra a cabeça que o governa! – proferiu o abade, ajeitando o corpanzil à margem da mesa opípara.
Bandearam-se em ágape amigos e conhecidos, e abriram-se para o monte merendeiros de folha e alforges bem aparelhados. Nas mãos brancas, nas mãos finas, nas mãos papudas apareceu o pernil de cabrito, a asa de galo, o bolinho de bacalhau; nas mãos negras e calosas – queijo, pêro e pão, comer de vilão. Breve, acima do rumor dos queixais, uma gracinha de menina, uma graçola de abade, passavam mais futigivas e ligeiras que o canto das cigarras quando os segadores vão trolhos fora, de foice em punho, ceifando. E homens e mulheres em cacho, estendidos ao comprido, de cócoras ou joelhos, sobre pedras e morouços de lenha, com cães à volta, os cavalos ao largo a pastar, lembrava aquilo, mais que fecho de grande romagem ou feira de ano, a ala de uma horda em sua aventura nómada.
O Baltasar doidinho andou rodando as comezainas, colhendo aqui uma bocado, disputando além um osso aos rafeiros. A troco de dois tonilhos lá ia abichando ora um trago, ora tanto como quodore, a pontos de fugir-lhe o chão debaixo dos pés quando os fidalgos começaram a alargar a carcela e a arrotar. Disseram-lhe, então, que pregasse um sermão, daqueles, de grande cerimonial, que ora faziam rir, ora chorar as pedras. Não se fazendo rogado, trepou o maluco para um penedo que, pela linha majestosa, podia muito bem ser a rocha em que já ignorados e primitivos Moisés, condutores de tribos, viessem bater com a ludibriante vara de bronze. E, brandindo as mãos em espadela, agitando a cabeçorra guedelhuda, rompeu:
– Ouvi, ouvi, almas de Barzabu, tanto faz correr como saltar, ao Papa-Moças não chegais!…
– Porquê Baltasar? Porquê? – bradaram muitas vozes a um tempo.
– Não lhe chegais… Tem vista de águia e não é águia; a força do leão e não é leão; a malícia da raposa e não é raposa; o discernimento do homem e não é homem…
– Então o que é? – gritou um ferreiro com a voz colérica e o gesto descomposto de bêbado ou desvairado.
– É o que é. Só vos digo que padres, legisladores, santarrões e velhos tartufos andam desde que o mundo é mundo para o empandeirar e nicles.
– Tem sete fôlegos!…”

In “Andam Faunos Pelos Bosques”, Aquilino Ribeiro, Bertrand Editora

 

 

 

Ilustração de Xu Lei para Vintage 2008, Châteu Mouton Rothchild

I raise my cup and invite
The moon to come down from the
Sky. I hope she will accept
Me. I raise my cup and ask
The branches, heavy with flowers,
To drink with me. I wish them
Long life and promise never
To pick them. In company
With the moon and the flowers,
I get drunk, and none of us
Ever worries about good
Or bad. How many people
Can comprehend our joy? I
Have wine and moon and flowers.
Who else do I want for drinking companions?

Su Shi

Mao Dang Lao, bronze (2002) – Zhang Hongtu


(…)
Salvatella tocou à campainha com a mesma educação com que entregou o seu obséquio a Carvalho, dizendo ser modesto mas interessante, da reprodução fac-símile dos primeiros números da Horitzons, uma revista cultural editada clandestinamente durante o franquismo. Carvalho prometeu a si mesmo que a queimaria antes de 1984, juntamente com a obra de Orwell. Ao aproximarem-se da porta sobre o cascalho do jardim, avisou-o da presença de Fuster.
– Não se preocupe. É meu sócio. Não tenho segredos para ele. Segredos profissionais entenda-se.
Sublinhou a palavra sócio quando fez as apresentações, e as sobrancelhas loiras de Fuster franziram-se mefistofélicamente atrás dos óculos a escorregar do nariz que lhe permitiam manter o ar de estudante da Sorbonne maltratado por uma calvície de frade. Ignorou a conversa entre Fuster e Salvatella enquanto aquecia o arroz refogado na cebola, lhe juntava o caldo deixado pelas amêijoas e caldo de peixe suficiente suficiente para que a massa do arroz ficasse com um dedo de líquido por cima. esperou que levantasse fervura, conservou o lume forte durante dez minutos, depois diminui-o e a seguir espalhou as amêijoas pela superfície do arroz para lhes fazer finalmente a oferenda floral do picado de alho e salsa. Entretanto, Fuster fazia as honras a Salvatella à base de xerez frio e azeitonas recheadas com amêndoas. A conversa entrava nas profundidades da fronteira entre Castellón e Aragão, rincão do mundo privilegiado onde Fuster tinha nascido e de onda saíra para estudar em Barcelona, Paris e Londres, numa viagem que desejava que fosse de ida e volta.  Salvatella fazia perguntas muito interessadas sobre o valencianismo anticatalanista. Dir-se-ia que tomaria notas se não tivesse as mãos ocupadas com o copo que Fuster alimentava com o zelo de um criado presunçoso e a caçar as fugidias azeitonas com dente de amêndoa. depois elogiou a escolha de Viña Esmeralda, revelando erudição ao mencionar o livro sobre vinhos escrito pelo fabricante e ficou extasiado depois de levar à boca o terceiro garfo carregado com o arroz aromatizado pelas amêijoas e o picado de alho e salsa.
É a antítese do arroz á valenciana. A simplicidade perante o barroco – concluiu Salvatella, e o movimento que Fuster fez com a cabeça indicou que elevava aquelas considerações a definitivas.

– Vocês os comunistas, são sempre comunistas? Agora, por exemplo, em plena digestão de um jantar suponho que agradável, o senhor é comunista? (…)

In  “Assassinato no comité central (Série Pepe Carvalho)” Manuel Vazquez Montalbán – 1981 ASA Editores SA/2007


 

http://observersroom.designobserver.com

Estão convencidos de que sabem fazê-la, de tal modo ela parece simples, e muitas vezes não lhe dão a devida importância. É preciso que coza entre quinze e vinte minutos e não durante duas horas — todas as mulheres francesas deixam cozer demasiado os legumes e as sopas. E depois, mais vale deitar os alhos porros na panela quando as batatas começam a ferver: a sopa fica com um tom esverdeado e ganha um aroma mais vivo. Alem disso, é preciso dosear bem os alhos porros: dois alhos porros médios são suficientes para um quilo de batatas. Nos restaurantes esta sopa nunca fica em condições: fica sempre cozida demais, demasiado «retardada», triste, morna, e acaba por incluir-se na lista comum das sopas de legumes — de que há falta — dos restaurantes franceses de província. Não, devemos querer fazê-la e fazê-la com cuidado, evitar esquecermo-nos dela ao «lume», para que não perca o sabor. É servida sem nada, ou com manteiga ou natas frescas. Também podemos juntar-lhe uns pedacinhos de pão torrado no momento de servi-la: dar-lhe-emos então um outro nome ou inventaremos um qualquer — deste modo as crianças comê-la-ão com mais vontade que se lhe dermos o nome ridículo de sopa de alhos porros com batatas. É preciso tempo, são precisos anos para reencontrarmos o sabor desta sopa, imposta às crianças sob diversos pretextos (a sopa faz crescer, faz os meninos bonitos, etc.). Não há nada na cozinha francesa que se possa igualar à simplicidade e à necessidade da sopa de alhos porros. Deve ter sido inventada numa região ocidental, numa noite de Inverno, por uma mulher ainda jovem, pertencendo à burguesia local, que, nessa noite, sentiu aversão aos molhos gordos — e a outras coisas mais, sem dúvida — mas sabia-o ela? O organismo absorve esta sopa com satisfação. Digamo-lo sem ambiguidades: não tem a suculência do toucinho, não é sopa para alimentar ou aquecer, não é a sopa magra para refrescar, o corpo sorve-a em grandes tragos, purifica-se, depura-se, embebendo os músculos nesta verdura primitiva. O seu aroma espalha-se nas casas muito rapidamente, é muito activo, vulgar como a comida do pobre, o trabalho das mulheres, o vomitado dos recém-nascidos. Pode não nos apetecer fazer nada e depois, fazer isso, sim, fazer essa sopa: entre estas duas vontades, uma margem muito estreita, sempre a mesma – o suicídio.

Marguerite Duras, “Outside – notas à margem” , trad. Maria Filomena Duarte, Difel.

Visto aqui Malone meurt

La Pipe

Je suis la pipe d’un auteur;
On voit, à contempler ma mine
D’Abyssinienne ou de Cafrine,
Que mon maître est un grand fumeur.

Quand il est comblé de douleur,
Je fume comme la chaumine
Où se prépare la cuisine
Pour le retour du laboureur.

J’enlace et je berce son âme
Dans le réseau mobile et bleu
Qui monte de ma bouche en feu,

Et je roule un puissant dictame
Qui charme son coeur et guérit
De ses fatigues son esprit.

Charles Baudelaire

LIVRO I

Aqui Mecenas, dou início ao canto
que nos ensina a ter fartas colheitas,
a como lavrar terra em astro certo,
a como vides ajuntar aos olmos
e que cuidados tem de haver com bois
ou como se tratar gado miúdo,
como levar saber à parca abelha.
E dos céus vos invoco, luminares,
que guias sois do percorrer dos anos.
E te venero, Baco, a Ceres honro,
a Ceres criadora, se é verdade
que foi por vós que nos trocou a terra
as landes da Caónia pelo trigo
e juntou à bebida de Aqueloo
o sumo de uva só por vós trazido.
E a vós também cuja divina ajuda
vale aos homens do campo, eu vos invoco
para que venham, Faunos, vossos passos
como os vossos também, Dríades jovens,
por vossos dons invoco. E tu, Neptuno,
a quem a Terra, por tridente lesa,
deu fremente a cavalo; e tu também
dos bosques habitante, a quem devemos
os três vezes cem touros que da neve
a brancura revestem e que pastam
as abundantes moitas de ilha Ceia;
e tu, deus Pã, o guarda das ovelhas,
deixa o bosque e gargantas do Liceu
que tua pátria são; e vem Tegeeu,
me dá a tua ajuda, se é que ainda
o Ménalo te importa; e tu Minerva,
que oliveira inventaste; e tu menino,
que arado adunco nos mostraste em obra;
e tu, Silvano, que desde a raíz
arrancado cipreste tens contigo;
deuses e deusas todas que cuidais
de defender os campos e que aos frutos
que da terra brotarem sem semente
sustentais quando nascem e do céu
tanta chuva fazeis logo descer;
…”

In, “Geórgicas”, Virgílio, Temas & Debates – Tradução do latim, Agostinho da Silva

Aqui

“O período de devoção religiosa de Tolstoi teria um término tão abrupto quanto o seu início. Na Quaresma, quando a família estava à mesa, perante um jantar vegetariano, Tolstoi pediu as costeletas reservadas ao tutor ateísta dos filhos. Quando Sofia lhe recordou que era dia de jejum, Tolstoi respondeu-lhe: “Não tenciono fazer mais jejum e, por favor, não volteis a encomendar-me refeições de Quaresma.” Foi com deleite que comeu as costeletas perante o olhar dos filhos. Vários deles não teriam qualquer religião na idade adulta, o que não surpreenderia Sofia: estavam normalmente confusos. Sofia sabia que o marido tinha uma grande necessidade da religião, mas que a sua fé tradicional o deixava insatisfeito. A sua busca espiritual era complexa, mas as suas conversões foram súbitas.”

In “Sofia Tolstoi – Uma Biografia”, Alexandra Popoff, Civilização Editora

Retrato de Leo Tolstoi por Ivan Nikolaevich Kramskoy

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